A Liturgia da Palavra desta Solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo, Ano B, apresenta-nos a Paixão de Cristo como o Sacrifício da Nova Aliança. O Sangue de Cristo na Nova Aliança, substitui e ultrapassa os méritos de todo o sangue das vítimas, derramado na Velha Aliança do Antigo Testamento.
Só o Sangue de Cristo tem um mérito infinito e só ele pode em verdade remir os pecados da humanidade de que o sangue das vítimas derramado nos sacrifícios da Antiga Aliança era apenas um símbolo. A celebração do Corpo e Sangue de Cristo hoje lembra-nos toda a Nova Aliança que adquire assim um significado mais completo e, por sua vez, faz compreender melhor o alcance do sacrifício da Cruz.
A 1ª Leitura, do Livro do Êxodo, diz-nos que no Sinai, Deus estabelece uma Aliança com o povo, por Ele libertado do Egipto. E, como todas as Alianças, que então se contraíam entre os homens, também esta é sancionada com o sangue de uma vítima, oferecida em sacrifício. Para os povos antigos, o sangue simbolizava a vida. Depois que o povo concordou, Moisés aspergiu-o com sangue das vítimas, dizendo :
- «Este é o sangue da Aliança que o Senhor concluiu convosco, de acordo com todas estas palavras».(1ª Leitura).
Ao derramar o mesmo sangue sobre o altar de Deus, e sobre o povo, Moisés, único mediador desta Aliança, significava assim que, com um pouco de vida, o povo se vinculava eternamente a Deus. O sangue de Cristo é o cálice da salvação, hoje aclamado com a invocação do Senhor, pelo Salmo Responsorial :
- “Tomarei o cálice da salvação, invocarei o nome do Senhor” !
Na 2ª Leitura, S. Paulo diz aos Hebreus, e hoje também a todos os cristãos, que todos os sacrifícios oferecidos na Antiga Aliança eram imperfeitos e provisórios. Todo o seu valor lhes vinha de simbolizarem e anunciarem o Único Sacrifício perfeito e definitivo - o de Jesus Cristo.
- “Ele ofereceu-Se a Deus como vítima sem mancha, e por isso o Seu Sangue nos purificará a consciência das ações que levam à morte, e assim poderemos prestar culto ao Deus Vivo”.(2ª leitura).
Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, aceite por Deus e pelos homens, o Senhor Jesus foi o Mediador perfeito, que ofereceu, duma vez para sempre o Sacrifício pelo qual foram expiados os nossos pecados e reatadas as nossas relações de amor com o Pai. Com este sacrifício de expiação e de aliança, Jesus tornou-nos herdeiros da herança e da Promessa, superando todos os sacrifícios da Antiga Aliança.
O Evangelho é de S. Marcos e diz-nos que, ao celebrar a Ceia Pascal, Jesus repetia um rito, velho de séculos, com o qual se comemorava a libertação do povo hebreu da escravidão do Egipto. Mas, no momento que toma o cálice e diz - «Este é o Meu Sangue, o Sangue de Aliança» - esse rito adquire um sentido inteiramente novo.
A figura cede perante a realidade; o sacrifício do Cordeiro pascal é substituído pelo único e perfeito Sacrifício
- «Isto é o Meu Corpo(...) Isto é o Meu Sangue de Aliança, que vai ser derramado por uma multidão». (Evangelho).
Antecipando o Sacrifício, com que no dia seguinte havia e selar a Nova Aliança, Jesus, na Última Ceia, dá-nos a possibilidade de nos associarmos à Sua Morte e Ressurreição, celebrando uma salvação permanentemente actual. No seu sacrifício, Cristo assume as misérias e os sacrifícios dos homens de todos os tempos.
Como um Sumo Sacerdote, entrando com o sangue da expiação no Santo dos Santos, desaparecia da vista do povo, mas estava mais do que nunca activo na sua obra de mediação pelo povo, também Cristo, entrando no céu, oferece por nós o seu sangue purificador.
Mas Ele permanece junto do Pai numa solidariedade muito operosa em relação a nós: o Seu sangue tem um poder infinito que verdadeiramente purifica e redime, instaura a nova aliança e tem força para atrair consigo os redimidos à herança eterna prometida por Deus.
Por isto o sacrifício de Cristo é único e eterno; realiza, por si só, tudo o que qualquer outro sacrifício não tem poder de realizar, mas não rejeita aqueles sacrifícios; dá-lhes valor e eficácia unindo-os ao seu sangue. O simples relato do Evangelho de Marcos apresenta as características essenciais do sacrifício de Cristo.
O antigo rito do cordeiro pascal, sacrifício que evoca a libertação dos hebreus da escravidão, atinge uma plenitude e um significado totalmente novos.
Cristo oferecendo-se para a imolação, opera a libertação integral e definitiva, e com o seu sangue sela a nova aliança, a que é verdadeiramente “a aliança” e esse sangue é derramado por todos como expiação dos pecados.
Na antiga lei havia sacrifícios de libertação, de aliança de comunhão, de expiação e de acção de graças; o sacrifício de Cristo tem em si todos esses valores. Daí toma o nome Eucaristia que quer dizer precisamente “Acção de graças”, porque os homens devem por tudo agradecer profundamente a Deus.
E Cristo deu início ao banquete da Última Ceia agradecendo a Deus, elevando ao Pai as “Acções de graças” que os homens muitas vezes se esquecem de dar pelos benefícios da Criação e da Redenção.